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Para Escrever

Não existe fórmula mágica ou modelo padrão para escrever. A crença fervorosa em regras é uma das heranças duras da educação linear tradicional. Ainda somos “doutrinados” a crer na existência de um jeito ou estilo certo para escrever. Colocado desta maneira, o iniciante (e também muitos veteranos) sentem-se incapazes de atender esta expectativa. O pensamento trava e o texto não flui. Por quê? Simples! A exigência do “padrão correto” vem antes.
Antes de seguir qualquer padrão, para escrever é preciso sentir-se livre. Escrever sem o peso da regra, do método, da certeza, livre para expressar o pensamento, experimentar. Agindo assim percebe-se algo inevitável: a forma do texto “toma forma” naturalmente, evolui tão espontânea quanto o pensamento.
Sentir-se livre é mergulhar em um universo de possibilidades. O texto surge, assume gradualmente sua dimensão enunciativa e os ajustes (sempre necessários) simplesmente acontecem, sem muita explicação, sem caminhos pré-estabelecidos. Claro, não se trata de afirmar que as regras da escrita devem ser abolidas, mesmo porque, para existir comunicação, padrões são necessários. A linguagem pressupõe modelos simbólicos de sentido e significação. Contudo, a prevalência da racionalidade instrumental (o fetiche da gramática) inibe a ação comunicativa.
Para escrever, em poucas palavras vale lembrar: quando se pensa muito sobre “como agir”, às vezes, acaba-se por “não agir”. Assim é na vida, assim é na escrita.
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

9 de fevereiro de 2015

Ciência: horizonte do real ou do ideal?

Horizonte é provavelmente uma das palavras mais empregadas por filósofos e cientistas. Um tipo de metáfora paradoxal que sugere a vastidão do conhecimento, ao mesmo tempo em que remete a uma linha divisória entre o perceptível e o imperceptível. Visto desta forma, o horizonte é um marco de disjunção, uma fronteira entre o que se sabe (ou o que se pode saber) e o que está para além desta possibilidade.
Há quem diga que esta linha divisória é inalcançável, já que o horizonte só pode ser percebido a certa distância do observador. Contudo, não só desejamos alcançar o horizonte, mas também acreditamos que seja possível ir além. É neste momento que a Ciência rende-se ao idealismo e revela-se como ideologia. Por meio da Ciência desejamos desvendar a existência. Infelizmente, nesta trajetória confundimos idealismo com arrogância. Acreditamos cegamente que estamos autorizados a saber mais e mais, para além dos limites do presente (e a qualquer preço). Acreditamos que somos capazes de revelar a verdade do universo independente de nossa própria existência.
Idealizar (sonhar) é importante (ter os pés no chão também), mas é necessário pensar sobre as consequências de nossos discursos e nossas ações no plano da Ciência e da Técnica. É preciso colocar sob suspeita afirmações supostamente desprovidas de valores. A realidade da Tecnociência é sempre uma “realidade projetada”, portanto, idealizada. Não se trata apenas de desvendar o que existe para além do horizonte e tentar descobrir os segredos do universo. "Conhecer é produzir uma tradução das realidades do mundo exterior [...] somos produtores do objeto que conhecemos; cooperamos com o mundo exterior e é essa coprodução que nos dá a objetividade do objeto", explica Morin (2011, p. 111)
Ao pensar e agir cientificamente o homem transforma o meio e modela a realidade. Todo o relato de uma descoberta é uma projeção idealizada de mundo. Assim, a verdade “revelada” não deixa de ser uma verdade “construída”. A vida é um horizonte de possibilidades de idealização e consequente construção de múltiplas realidades. Toda descoberta é um horizonte de construção de sentido.
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

Referência
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2011.

18 de dezembro de 2014

Magia, Idealismo e Realismo

Quando você assiste a um show de mágica, como se sente? desconcertado e enganado a ponto de falar mal do mágico, ou fica encantado e com vontade de ver a façanha novamente.
A resposta para esta pergunta tem íntima relação com o modo que encaramos os desafios da vida. Quem não gosta de mágica (por se sentir enganado) é rotulado de “realista”. Quem fica encantado com o “coelho da cartola” é chamado de “idealista”.
Concordo com Rubem Alves quando diz que o realismo e o idealismo se completam. Para que possamos nos aproximar de uma existência mais justa e digna (e neste sentido mais completa), não há como tomar partido de um ou de outro. Creio que em todas as situações da vida é preciso o tempero dos dois, inclusive na prática da pesquisa.
No mundo da ciência e da tecnologia de hoje, em nome de pretensas verdades, infelizmente ainda predomina o realismo, a racionalidade instrumental e a técnica como valores de grau maior.
Caminhar apenas pelos trilhos da racionalidade e acreditar que a supremacia da razão atende a tudo e a todos, é uma opção que pode nos transformar em seres débeis e insensíveis.
Precisamos da razão, mas também precisamos idealizar e sonhar. A realidade só é realidade porque antes foi idealizada, era sonho, ensina Bartolomeu Campos de Queirós.  Precisamos do encantamento e da magia. É por meio dela que a curiosidade se anuncia. O império da racionalidade instrumental pode nos levar ao ápice da arrogância e da incompetência intelectual.
Quem acredita que sabe tudo, não sabe nada. Sem encantamento não há espaço para perguntas, não há espaço para o diálogo. Sem encantamento, as respostas ocultam as perguntas e sem perguntas o mundo para.
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

19 de fevereiro de 2014

Muito além da instrumentalidade da linguagem

Creio que muitas pessoas, sem se dar conta, reconhecem que a linguagem tem um caráter exclusivamente instrumental. Preciso confessar que durante muito tempo minha percepção também era esta: linguagem era instrumento. Em outras palavras,  estudar língua portuguesa era uma questão de comunicação, estudar outro idioma era uma exigência de mercado. Linguagem sempre vista como ferramenta, um recurso para suprir uma demanda. 
Hoje percebo que esta não é a única (ou principal) perspectiva a considerar. Sob a influência de Heidegger e Gadamer, resgato os ensinamentos da filosofia para afirmar que a linguagem é elemento constitutivo do “pensar” e, consequentemente, do “ser – conhecimento” e do próprio “ser – pessoa”. 
Pensamentos mais articulados, complexos e abstratos não existem sem linguagem. Por exemplo: as ideias que tento expor aqui não são constituídas por pensamentos etéreos, elementos metafísicos anteriores a construção do texto. Estas ideias sequer seriam pensadas sem que as palavras e seus sentidos existissem. Insisto: não se trata de considerar a linguagem apenas como um conjunto de signos que comunicam “algo”. O “algo” só existe porque a linguagem o constitui, de modo que os pensamentos devem sua existência a linguagem. 
Assim, quanto mais amplo e diversificado for o emprego da linguagem, mais articulados e refinados os pensamentos se tornam. A partir do momento que reconhecemos a linguagem, não mais como mero instrumento, mas como um elemento constitutivo do ser, percebemos que por meio da expressividade plural de linguagens verbais e não verbais temos a grande oportunidade de aprimorar a inteligência, a criatividade, a criticidade e a sensibilidade emocional. 
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

12 de fevereiro de 2014

Papai Noel existe sim!

Pensar sobre a pesquisa científica, para mim, é muito mais do que pensar em procedimentos e certezas. É sempre uma oportunidade para refletir sobre uma questão anterior mais abrangente. Refiro-me ao ato de acreditar. Todos os seres humanos convivem com a crença de alguma forma.
Na ciência, acreditar pressupõe certeza. A racionalidade científica somente nos autoriza a acreditar em algo que possa ser comprovado. Neste contexto, para crer é preciso firmar um pacto com a verdade.  
Para os racionalistas mais radicais, crer é um ato de vontade que não se confunde com a verdade (note que crer e querer são palavras parônimas). Para estes “sempre existirá uma verdade” que independe de um querer.
Mas será que o sentido da vida se resume a busca de certezas? Seria então a vida uma jornada rumo a desvendar tudo que pressupomos encoberto por mistério e encantamento? Trago aqui a visão do poeta e escritor Bartolomeu Campos de Queirós que afirma ser o homem feito de “real” e de “ideal”. A fantasia, assim como a racionalidade, nos constitui enquanto seres em sociedade. 
A fantasia, diz o poeta, é o que existe de mais importante na construção do mundo.  Se existe um novo é porque ele foi fantasiado anteriormente. Então nós devemos a fantasia todo o desenvolvimento do mundo. 
A partir destas palavras quero dizer que sim, acredito no Papai Noel! Enquanto constructo da tradição que se manifesta pela linguagem. Mantenho comigo a esperança de que o bom velhinho resista ao desencantamento e ao consumismo, e que possa sempre nos lembrar da importância de cultivarmos solidariedade e compaixão em nossas vidas.
Um ótimo Natal.
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

21 de dezembro de 2013

A importância de formular perguntas: por uma dialética da criticidade

Há muito tempo estou convencido da importância do hábito de formular perguntas (questionamentos) para atingirmos uma condição intelectual mais articulada e autônoma. Contudo, compartilhando este assunto com alunos constatei que a ideia sobre o que é “construir uma pergunta” vai além do fato de elaborar frases interrogativas. Tentarei explicar um pouco mais este ponto de vista.  
Diariamente todos nós formulamos perguntas mentalmente. Afinal, o cotidiano oportuniza situações onde dúvidas e questionamentos surgem de forma intuitiva. Mas isto, por si só, não é suficiente. Quem de nós já dedicou alguns minutos ou até horas analisando (pensando) como estas perguntas foram elaboradas? Quais os fatores (premissas) que determinaram a sua formulação?
Creio que esta prática, ou seja, pensar sobre o "como" e o "porquê" construímos determinados questionamentos é infelizmente pouco exercida. Pensar sobre as perguntas é tão ou mais importante do que fazer as perguntas. Por exemplo, se eu pergunto “como posso encontrar um problema de pesquisa?”, parto da premissa que o “problema” está disponível em algum lugar e, portanto, pode ser encontrado. Reconheço que o problema é algo externo a mim (assim como a resposta). Por outro lado, o sentido de que um problema não está pronto, mas pode ser construído, não passa pelo filtro desta pergunta. Esta possibilidade fica afastada do “olhar crítico”, sequer será considerada, simplesmente porque a pergunta foi formulada a partir de uma determinada maneira de ver o mundo. Lembre-se: assim como não existem afirmações isoladas de contextos, também não existem perguntas desvinculadas de contextos. Neste sentido, sempre que formular uma pergunta, pense também no contexto a partir do qual ela é delineada.
Outro ponto que considero importante trabalhar é sobre as respostas. Quero destacar a relevância que existe na prática de exercitarmos respostas a partir da "bagagem" que cada um de nós tem. Aqui, o tradicional discurso científico dá “um tiro no pé”. 
Quando professores insistem em afirmar que o aluno deve fundamentar o trabalho de pesquisa a partir de um mundo de citações, se esquecem de dizer que fundamentar não é apenas citar. Esta absoluta reverência à consistência pressuposta da autoridade, oprime o pesquisador iniciante que, de duas uma: ou entra na ciranda da repetição do discurso posto ou passa a acreditar que a pesquisa científica é um mundo muito distante do seu. 
Ao colocarmos o rigor científico em primeiro plano, paradoxalmente atribuímos à ciência uma maldição: ser instrumento dogmático encastelado incapaz de lidar com o que está fora de seus limites. Precisamos valorizar mais o pensar, a filosofia e a criatividade, obviamente reconhecendo que o pensar de cada um é resultado de uma vivência que dialoga com outras vivências, sem armaduras, sem dogmas. Por isto não admito métodos inquisitoriais de avaliação, não acredito na autoridade pressuposta do "grande doutrinador" e não aceito a forma estigmatizante como muitos se referem a erros gramaticais alheios. 
A criticidade é um eterno diálogo entre o conhecimento dado e o conhecimento que somos capazes de construir e desconstruir. Creio que a oportunidade para a dialética da criticidade só acontece em um ambiente de liberdade e respeito à diversidade intelectual, onde aqueles que dizem pouco saber, digam o que sabem, e aqueles que afirmam muito saber, humildemente ouçam e compartilhem.

Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

16 de setembro de 2013

Muito além do Ctrl+C Ctrl+V

Ideias não surgem do nada. Elas são o resultado do pensar, entendido como um processo mental onde estabelecemos relações entre inúmeras outras ideias e informações. Assim, para construir o pensamento nos apropriamos do discurso de outras pessoas, expressos verbalmente ou por meio de textos. Isto acontece em qualquer situação do cotidiano e não é diferente na produção de textos científicos.
Mas atenção: construir o pensamento não é uma prática de mera apropriação e reprodução. Pensar é bricolar mentalmente com o que nos apropriamos. Infelizmente, no cotidiano, somos levados muito mais a reproduzir informações do que a pensar. As consequências deste gap intelectual são evidentes. Esta é uma das razões que levam muitos alunos da graduação a encarar o Trabalho de Conclusão de Curso como um enorme fardo.
Neste mundo superavitário de informações onde a tecnologia é intensamente empregada a favor do imediatismo e do facilitarismo, o quadro não poderia ser outro. Para quem está limitado ao modelo mental apropriação/reprodução, é muito difícil articular ideias e expressá-las textualmente.
Reproduzir não é, em si, um problema. Aliás, em certo sentido a reprodução e a repetição são práticas importantes para a aprendizagem. Mas precisamos ir além. Veja-se, por exemplo, a questão das citações em trabalhos científicos. Será que transcrever trechos de outros trabalhos com a indicação dos respectivos autores é suficiente? Será que paráfrases podem ser obtidas com a simples troca de algumas palavras dos trechos citados? Certamente não.
Ir além é compreender que articular e expressar o pensamento (principalmente no texto) são práticas que exigem uma postura intelectual ativa e criativa. Ativa porque passamos a conduzir a leitura e a escrita, identificando e caracterizando a estrutura e sentido do texto. Criativa porque vamos além da reprodução: desconstruímos o texto, desvendamos sentidos, conjugamos ideias e, com isto, projetamos novos horizontes.
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

10 de julho de 2013