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Ensaio acadêmico

O ensaio se aproxima do artigo científico, embora não se confunda com ele. Sua preocupação com a demonstração exaustiva pode ser menor, pois o gênero ensaístico admite maior liberdade para formular hipóteses, interpretações e afirmações que se apresentem como possibilidades de reflexão. Isso, contudo, não autoriza uma escrita arbitrária ou desprovida de estrutura. Há uma proposta temática, um desenvolvimento argumentativo e considerações finais. Em muitos casos, sua organização se aproxima daquela de um artigo, com introdução, desenvolvimento e conclusão. Em outros, especialmente em uma postagem ensaística em blog, a estrutura pode ser mais livre, e as referências completas podem eventualmente ceder lugar a links ativos.

A própria palavra “ensaio” conserva a ideia de tentativa, de experimentação. No teatro, o ensaio admite interrupção, erro, reinício e repetição de uma cena. A peça completa ainda não está pronta, mas o trabalho já possui direção, compromisso e forma. O ensaio escrito guarda, de modo semelhante, uma abertura própria de uma obra que não reivindica exaustividade ou acabamento absoluto. Essa abertura, contudo, não elimina o dever de clareza, coerência interna, consistência argumentativa nem a indicação das fontes efetivamente utilizadas.

Em um ensaio acadêmico, o texto pode começar pelo título e pelo nome do autor, seguido da exposição do problema ou tema e de seu desenvolvimento, sem que o resumo constitua necessariamente uma exigência do gênero. Poucas referências podem ser suficientes quando correspondem às interlocuções efetivamente mobilizadas pelo texto. O menor número de fontes, entretanto, não dispensa sua adequada identificação nem afasta a responsabilidade do autor quanto ao uso que delas faz.

Prof. Dr. Alejandro Knaesel Arrabal

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Notas: O texto corresponde a uma transcrição gerada e posteriormente tratada com o auxílio da plataforma de Inteligência Artificial Generativa ChatGPT, a partir de um momento explicativo da aula realizada em 4 de setembro de 2026, no componente curricular “Patrimônio Cultural Imaterial e Propriedade Intelectual”, do Mestrado em Direito da Universidade Regional de Blumenau (FURB). A imagem ilustrativa foi gerada com o auxílio da plataforma de Inteligência Artificial Generativa ChatGPT.

4 de setembro de 2026

A pedagogia do apagamento: objetividade como um problema para o pesquisador

É comum afirmar que a pesquisa científica exige rigor, objetividade e método. Aparentemente essa afirmação não apresenta maiores implicações. Contudo, considero que existe um problema grave quando esses atributos passam a constituir de modo predominante o próprio horizonte do pesquisador, especialmente daqueles que buscam aprender como pesquisar cientificamente. 

Receio que, não raro, ensina-se (ou aprende-se) menos a pesquisar e mais a reproduzir uma determinada estética da cientificidade. Certos modos de "dizer" o que é e como se faz pesquisa científica, fortalece o imaginário de que fazer ciência consiste em atender a requisitos técnicos e metodológicos previamente estabelecidos, como se o conhecimento resultasse da correta aplicação de um protocolo sobre um objeto já posto e plenamente disponível à descrição.

Essa compreensão produz um efeito silencioso perverso. Ao colocar a objetividade no centro da formação, acaba-se por deslocar o próprio pesquisador para uma posição periférica. Trata-se da sugestão, ainda de inaudita e involuntária, que quanto menos o sujeito aparecer, mais científica será sua investigação. A pesquisa deixa, então, de ser uma vivência de envolvimento intelectual com um problema e se torna uma operação técnica destinada a produzir descrições objetivas da realidade.

Ocorre que toda descrição participa do design do que descreve. Ela seleciona, organiza, estabelece relações, define fronteiras, atribui relevâncias e produz silêncios. Não existe descrição que apenas transporte o objeto para a linguagem. A própria linguagem constrói o que passa a ser reconhecido como objeto de pesquisa. Por isso, a objetividade não pode ser confundida com a ilusão de que seria possível descrever o mundo independentemente da própria arquitetura da descrição formulada. 

Paradoxalmente, quanto mais o ensino insiste na ideia de que a pesquisa deve primar pela objetividade, menos favorece o desenvolvimento do pensamento crítico que afirma promover. O estudante passa a compreender que seu contexto, sua trajetória, suas dificuldades, suas inquietações e até mesmo sua autoria possuem importância secundária diante da necessidade de produzir um texto que ostente os sinais exteriores da cientificidade. O rigor deixa de ser compreendido como responsabilidade intelectual para transformar-se em conformidade estrutural.

A terceirização da escrita acadêmica, o plágio e o uso servil da inteligência artificial generativa são, provavelmente, também movidos por esses aspectos do dizer científico, fenômeno que envolve, claro, outros fatores. Essas praticas encontram terreno fértil em uma pedagogia que ensina o estudante a acreditar que sua principal tarefa consiste em entregar um produto objetivo, demanda que, diante de inúmeras outras tarefas cotidianas, precariza atos e atitudes que se esperam de um percurso intelectual genuíno em propósitos e autêntico em condições de realização. 

O problema, portanto, não reside na objetividade enquanto compromisso epistemológico, mas na objetivação da própria formação científica. Quando a objetividade ocupa o lugar do pesquisador, a pesquisa deixa de ser vivenciada como prática autoral responsável em seu pertencimento comunitário para converter-se em um conjunto de procedimentos passíveis de execução por qualquer agente suficientemente competente para reproduzir seus marcadores formais. Nesse cenário, o uso servil da inteligência artificial generativa é só mais um capítulo de uma fragilidade formativa que já se encontra inscrita no modo como, há muito tempo, são reproduzidas certas práticas de ensinar o fazer científico.

Prof. Dr. Alejandro Knaesel Arrabal

Notas: 
- Texto elaborado com auxílio de IA Generativa (ChatGPT) para organização textual, revisão ortográfica, gramatical e aprimoramento da redação. As afirmações, argumentos e conclusões são de integral autoria e responsabilidade de Alejandro Knaesel Arrabal.
- Imagem gerada com auxílio de IA Generativa (ChatGPT), baseada em ilustração original de autoria de Alejandro Knaesel Arrabal.

3 de agosto de 2026

O poder da palavra: linguagem e produção de sentido

Para além do papel estritamente funcional, a linguagem é “viva”, e nós, como seres culturais, somos parte dela. Seu caráter dinâmico emerge do fluxo das relações humanas. Quando se diz que uma determinada palavra “carrega um significado”, é preciso cuidado para não reduzir essa afirmação a uma noção substancialista. Dito de outra forma, o sentido não é algo irremediavelmente “colado” às palavras. O sentido é sempre produto de um ambiente comunicativo, um entre muitos construtos decorrentes das relações interpessoais. Assim, o “poder da palavra” não está no código como representação estática, mas reside nas condições em que ele é empregado em uma dada coletividade.
Por meio das palavras, é possível atribuir nomes e qualidades aos objetos materiais e também às ideias. Seu uso sempre comporta adaptações que transformam e produzem novos sentidos. Metáforas são assim. Na frase “a ética está no ‘DNA’ da empresa”, observa-se a tentativa de imprimir à ética a qualidade de fator constitutivo da organização. Ela é referida como elemento “essencial” da empresa e, nesse sentido, pretensamente inafastável. Importada da biologia, a expressão “DNA” introduz ao discurso uma semântica determinista. Na biologia, o Ácido Desoxirribonucleico refere-se ao código instrucional que “determina” a constituição biológica de seres vivos.
Assim, também a palavra “natureza”, entre outras expressões da biologia e, mais recentemente, da neurociência, é empregada com o objetivo de conferir solidez e irrefutabilidade aos mais diversos discursos. Nesse mesmo sentido, narrativas acadêmicas frequentemente introduzem categorias estranhas a campos conceituais distintos como recurso argumentativo. Zygmunt Bauman fez isso ao desenvolver o conceito de “modernidade líquida”. Essa invasão, ou transposição semântica, por assim dizer, produz efeitos transformadores sobre o pensamento, cujas consequências, embora não sejam totalmente previsíveis, são profundamente marcantes.
Contrárias às concepções mais conservadoras da língua, a produção contemporânea de neologismos e as ressignificações a partir de figuras de linguagem conferem certo tônus inovador aos discursos e, por via de consequência, apontam tendenciosamente para pressupostas legitimidades.
O “nome da rosa” não cheira, a palavra “faca” não corta, mas os significados, valores e sentidos compartilhados no mundo produzem efeitos simbólicos reais. Nesse mundo da linguagem, que coexiste com o mundo material, o aroma da rosa é palavra que significa, e é, portanto, nela que podemos confirmar, uns aos outros, a experiência que vivenciamos. Assim, a existência social humana, que inclui realizações e testemunhos sobre os fenômenos da Terra, só é possível porque somos verbo, somos linguagem.
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

Texto revisado em 13 jan. 2026
Imagem: www.pixabay.com

Para citar:
ARRABAL, Alejandro Knaesel. O poder da palavra: linguagem e produção de sentido. Prática da Pesquisa, 4 dez. 2027 (Revisado em 13 jan. 2021). Disponível em: http://www.praticadapesquisa.com.br/2017/12/o-poder-da-palavra-linguagem-e-producao.html. Acesso em:

4 de dezembro de 2017

Traje adequado para a apresentação perante banca

Creio que a comunicação não é privilégio das palavras. Ela também acontece por meio da entonação e do ritmo da voz, dos gestos, do olhar e da postura corporal. Neste sentido, é evidente que o traje representa um elemento da comunicação que não pode ser desprezado.
Adequação é um aspecto do Trabalho de Conclusão de Curso que caminha do texto à expressão corporal. Adequado não é simplesmente o que convém. Significa algo alinhado, em harmonia com um determinado contexto.
Nestes tempos marcados pelo signo da Inovação, muitos procuram fazer diferente. Ocorre que, para inovar, seja durante a pesquisa ou na sua apresentação, é preciso construir um horizonte de sentido. Não se inova simplesmente por “inovar”.
Sabe-se que o Trabalho de Conclusão precisa evidenciar argumentos consistentes em relação à estrutura e fundamentação. A comunicação verbal, em sintonia com o texto e o perfil do orador, precisa ser clara, segura e objetiva. No corpo, vestes confortáveis que expressem discrição e elegância, sem exageros. Trajes despojados ao extremo comprometem. Elimine tudo que provoque mais atenção do que a mensagem. A ideia é somar (e não sobrepor) ao conjunto da obra. Para mais informações sobre a apresentação perante banca, recomendo a consulta deste link: http://goo.gl/GmXAtH
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal
Imagem:  www.pixabay.com

3 de julho de 2016

Existe diferença entre busca e pesquisa na Internet?

Imagine que você vai adquirir um novo computador já que o velho “pifou”. O mercado oferece inúmeras marcas, modelos e configurações. Surge a dúvida: qual computador comprar? Há quem diga existir apenas uma resposta para esta pergunta: compre o melhor equipamento que o bolso possa alcançar. Particularmente não concordo com esta visão, mas admito: não deixa de ser um critério. Um tanto amplo, é verdade! Afinal, há computadores disponíveis em uma escala de valores que vai de R$ 1.000,00 para além de R$ 10.000,00. Considerando esta situação hipotética há, pelo menos, duas possibilidades de ação:
a) Pesquisar a melhor opção a partir dos seguintes procedimentos: elaborar uma lista de necessidades e preferências em relação ao equipamento, por ordem de prioridade; realizar um levantamento de informações sobre as tecnologias disponíveis no mercado considerando as variáveis “desempenho”, “durabilidade”, “conectividade” e “capacidade de armazenamento”; por fim, tabular todas as informações obtidas, estabelecendo um cruzamento quali e quantitativo a partir das preferências e necessidades previamente eleitas. O resultado será um panorama que permitirá uma tomada de decisão mais assertiva.
b) Buscar a uma “resposta pronta” que aponte a “melhor opção” em sites especializados, ou pedir a opinião de alguém no Yahoo respostas, ou, ainda, render-se às sugestões do vendedor da loja mais próxima.
Percebeu a diferença? A pesquisa representa uma tarefa que demanda postura ativa, construtiva e criteriosa pois implica na formulação de conhecimentos consistentes. A busca é uma tarefa que tende a ser passiva, reprodutiva e desprovida de critérios já que limita-se à mera apropriação de informes sobre saberes disponíveis, sejam estes atuais ou não, verossímeis ou falsos. Ao buscar informações por meio de plataformas como Google, Bing ou Yahoo, por exemplo, não se está necessariamente pesquisando.
A pesquisa representa um conjunto amplo de atividades que exigem planejamento e tempo. Certamente a Internet fornece recursos fantásticos para realizar buscas sobre informações diversas. Afinal, trata-se de uma plataforma mediadora de comunicação que rompeu com as barreiras tradicionais de tempo e espaço. Mas isto não significa que a pesquisa tornou-se uma tarefa mais (ou menos) fácil.
Mudanças ocorreram (e continuarão ocorrendo) sim, seja em relação aos meios de publicação e acesso à informação, ou aos modos de comunicação e relacionamento sociais. Neste contexto emergiram facilidades e práticas inéditas. Mas a pesquisa demanda planejamento, definição/identificação de critérios e variáveis, leitura atenta, entre tantas outras atividades que, mesmo mediadas e instrumentalizadas tecnologicamente, não podem ser abolidas sob pena de comprometer a emergência do pensamento crítico e criativo.
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

26 de maio de 2016

Livros de edições diferentes na revisão bibliográfica

Ao realizar uma pesquisa de revisão bibliográfica é importante observar as edições das obras consultadas. Em geral, recomenda-se utilizar a mais recente e manter-se fiel a mesma edição. Digo isto porque não é raro acontecer o seguinte: você vai até a biblioteca da universidade e leva temporariamente o livro “x”. Passa algum tempo com a obra, realiza a leitura, traz algumas passagens para o seu trabalho (na forma de citações diretas) mas não conclui antes de devolver o livro. Na segunda oportunidade pega um exemplar do livro "x" disponível na biblioteca, mas não se dá conta que é uma outra edição. Assim, pode acontecer que o conteúdo de uma obra seja diferente da outra, isto porque uma delas é atualizada ou porque foram produzidas por editoras distintas. Nestes casos há grande possibilidade da numeração de páginas ser diferente, de modo que isto representará um problema para o seu trabalho.
Três alternativas para resolver a questão: a) verifique se todas as páginas indicadas nas citações do seu trabalho “batem” com a edição disponível e, caso não coincidam, procure identificar em quais páginas os conteúdos citados estão; b) tente obter o exemplar da mesma edição que foi utilizada no início para continuar o trabalho; c) utilize as duas edições e apresente a referência de cada obra.
A ideia é manter a integridade da relação entre as citações do texto e as referências no final do trabalho. Você pode achar que esta orientação é exagerada. Afinal, mesmo que exista alguma variação, ela pode não ser tão relevante assim. Bom, por experiência própria, afirmo que já encontrei diferenças muito grandes entre livros de edições distintas. Portanto, cuidado para não citar trechos de uma edição e referenciar outra de modo a gerar inconsistências indesejáveis entre as páginas indicadas nas citações e a obra referenciada.
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal
Foto: www.pixabay.com

17 de março de 2016

Citação da citação: você sabe como fazer?

Na hipótese de produzir de um trabalho acadêmico, considere a seguinte situação:
Você tem à disposição um artigo cientifico encontrado na Internet cujo autor é José Justino. José incluiu neste artigo diversas citações, ou seja, ele promoveu um diálogo com várias fontes bibliográficas, citando e comentando diversos autores. Dos autores citados destacam-se: Bernardo Baiano, Maria Aletéia, e Thiago Cartago. José registrou (citou) no corpo do trabalho trechos dos livros publicados por estes autores, bem como apresentou as referências das respectivas obras no final do artigo, em ordem alfabética.
Ao perceber a relevância destas citações, você:
a) transcreve as citações e as referências apresentadas por Justino, sem mencioná-lo no seu trabalho?
b) cita e registra as referências dos livros de Baiano, Aletéia e Cartago, bem como do artigo de Justino?
c) transcreve as citações de Baiano, Aletéia e Cartago no seu trabalho, mas menciona que elas foram citadas por José e, ao final do seu trabalho, apresenta apenas a referência do artigo científico do Justino?
Esta situação hipotética retrata uma circunstância do cotidiano de qualquer pesquisador na produção de revisões bibliográficas. Trata-se da citação da citação. Há quem não aceite esta prática já que trata-se de uma espécie de “diz que me diz”, ou seja, Fulano disse que Beltrano disse… Dizer o que alguém disse por interposta pessoa não só caracteriza a popular “fofoca” como é uma prática que pode resultar em falhas de comunicação.
Para ilustrar, recomendo que faça a seguinte dinâmica com os seus amigos:
Diga algo complexo (no “pé do ouvido”) para um deles e peça que transmita essa mensagem da mesma forma para outro, e este para outro, sucessivamente. O último informado deverá revelar para todos a mensagem recebida. Neste experimento, quanto mais complexa for a informação e mais pessoas participarem, maior a probabilidade da mensagem original mudar de sentido quase por completo. O mesmo pode acontecer com algum conteúdo expresso por escrito, caso o registro de cada participante seja realizado livremente. Por outro lado, quando a comunicação (verbal ou escrita) é realizada de forma literal, este problema geralmente não ocorre.
Outro argumento contra a citação da citação, especialmente no contexto do ensino/aprendizagem, é que esta prática sugere que o pesquisador (aluno) não se esmerou tanto quanto podia (e deveria) na busca das fontes – parou na primeira que encontrou. Claro, há situações em que a fonte primígena é de difícil acesso. Nestes casos, mesmo os mais relutantes no emprego da citação da citação acabam por aceitá-la. Contudo, usada com moderação, a citação da citação é recomendável e deve ser apresentada de modo que não deixe dúvidas ao leitor sobre quem citou quem.
Portanto, a resposta para situação descrita no início é a alternativa “c”, que pode ser exemplificada da seguinte forma:
No corpo do trabalho: 
Conforme explica Aletéia citada por Justino (2015, p. 35) “[…] transcrição do texto de Maria”.
Nas referências: 
JUSTINO, José. Como citar fontes científicas. Revista Ciência&Pesquisa, Blumenau, v. 12, n. 32, p. 20-34, jul./dez. 2015. Disponível em: Acesso em: 10 jan. 2016.
Em tempo: cabe lembrar que a expressão latina "apud." pode ser empregada em substituição à expressão "citado por". Pessoalmente, prefiro o bom e claro português.
Para saber mais sobre citação da citação, confira estes links:
Citação da citação, eis a questão!
Devo citar o autor citado no artigo ou o autor do artigo?
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal
Foto: www.pixabay.com

14 de fevereiro de 2016

Citação da citação, eis a questão!

Em nome da certeza e do rigor científico, há quem afirme ser absolutamente necessário citar fontes primárias. Aproximar-se ao máximo do discurso original. Isto implica em não empregar recursos como citação da citação, ou valer-se de textos traduzidos. Ocorre que não é raro encontrar livros e artigos que, por sua vez, empregam (citam) outros textos. Autores que citam outros autores. Cabe então a pergunta: é adequado utilizar o recurso da citação da citação?
Acredito que seja preferível usar a citação da citação do que citar e referenciar as fontes dos autores consultados, sem mencioná-los. Valer-se furtivamente das citações de outros trabalhos é enganar o leitor, sonegando o acesso aos textos utilizados na pesquisa. Sobretudo, importa evidenciar a ética na produção acadêmica, priorizando o informe das fontes realmente consultadas. Transcrever as citações contidas nos trabalhos consultados sem mencioná-los é conduta desonesta e fraudulenta.
Claro que é relevante investir na busca das fontes primárias, mas exigir do aluno de graduação a consulta de livros cujo acesso é difícil ou mesmo a leitura de textos em outros idiomas pode ser o mesmo que convidá-lo a “maquiar” o trabalho. No ensino universitário e também na vida, a ética deve permear o plano concreto das condutas e relações humanas. A honestidade precisa ocupar o espaço do cotidiano, do comum, e não ser vista como virtude excepcional de poucos iluminados puritanos.
Aproximar-se deste ideal, ainda que seja um horizonte inatingível em sua plenitude, exige renúncia das vaidades intelectuais e das pseudo-cientificidades do ambiente acadêmico. É preciso considerar a ação (pesquisa) e não apenas o produto (monografia). Compreender que a experiência vivida com a pesquisa, seus desafios, reflexões e escolhas são tão ou mais importantes que o resultado final. Na universidade, o texto do Trabalho de Conclusão é o rastro de uma jornada cujo objetivo maior consiste no aperfeiçoamento humano e profissional. Enfrentar os desafios da academia e da vida com respeito, ética e humildade, é disso que falo!
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

27 de setembro de 2015

Para pesquisar é preciso transgredir!

Escrever um texto coerente com quarenta, sessenta ou até cem páginas, sem dúvida, é algo trabalhoso e exaustivo para a maioria dos alunos da graduação. Mas produzir um trabalho de pesquisa mais expressivo (como é o caso do TCC) não é simplesmente desenvolver uma longa compilação de citações, um amontoado de fragmentos de textos. Realizar uma pesquisa é viver uma experiência de construção/desconstrução de saberes a partir de uma postura intelectual engajada.
Para além da redação e da editoração do texto, a boa pesquisa exige, sobretudo, romper com o pensamento linear e a ideia de separação entre pensamento e ação. Observe: da mesma forma que não se constrói uma casa a partir da porta de entrada, também não se elabora um projeto de pesquisa exatamente na mesma ordem da sua apresentação. Em igual sentido, não se escreve um TCC rigorosamente na sequencia: introdução, desenvolvimento e conclusão.
A emergência do pensamento e a produção de texto são processos imbricados que pressupõem a transgressão da ordem posta. Para o senso comum, primeiro pensamos e depois transportamos o pensamento para o texto. Para o senso comum, conhecimento é eminentemente produto que pode ser adquirido, armazenado, interiorizado e transferido. Proponho transgredirmos esta ordem e reconhecermos que não só pensamos para escrever, mas também escrevemos para pensar. É preciso colocar em primeiro plano a experiência da pesquisa, a vivência e não o produto. Subverter a ordem que nos condena à inércia intelectual, é disso que falo.
A emergência do saber implica em uma dialógica que acolhe o movimento inverso à ordem aparente, um olhar contrário e complementar à crença do conhecimento como algo consolidado. Assim, o método de pesquisa se apresenta muito mais como rastro das ações e escolhas do pesquisador do que uma estrada que conduz à verdades e respostas prontas. Pesquisar é desvendar e, ao mesmo tempo, desconstruir o que está dado.
O pensamento exclusivamente linear não nos oferece condições para uma efetiva emancipação intelectual. Do mesmo modo, pressupor que o pensamento e o conhecimento são substâncias, contribui significativamente para uma espécie de atrofia epistêmica, em outras palavras, limita a experiência da pesquisa à processos padronizados de investigação e reprodução de informações. Crer na pesquisa apenas como a descoberta de algo existente e no conhecimento como um produto a ser interiorizado, leva a uma conclusão óbvia, mas radicalmente equivocada: produzir um trabalho é reproduzir o que outros - mais altivos na hierarquia do saber - já pensaram, descobriram e afirmaram.
Na sociedade da informação, colecionar citações em um trabalho acadêmico é ato “sem sentido” que não alcança a eficiência e o poder das tecnologias de armazenamento, reprodução e distribuição de dados. Ocorre que a questão (o equivoco) é justamente esse! Pesquisa não é simples reprodução, um mero compilado de citações como já dito. Pesquisa é trajetória envolvente e visceralmente inquietante, por isso, prazerosa; é ação engajada e epistemologicamente transgressora, por isso, emancipadora.
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

18 de setembro de 2015

Existem temas de pesquisa inadequados para a graduação?

Há quem afirme que certos temas de pesquisa não podem ser tratados na graduação. Seja em razão do grau de complexidade ou do caráter inovador, eles estariam, por assim dizer, reservados a níveis mais elevados de produção acadêmica, leia-se: dissertação de mestrado ou tese de doutorado.
Creio que esta afirmação está ancorada em pressupostos que precisam ser repensados. Um deles é a ideia de que os temas de pesquisa são como produtos prontos, catalogados, etiquetados e divididos em diversos departamentos - uma espécie de megastore do conhecimento. Assim, neste mercado do saber há de tudo, mas cada produto (tema) está em um setor específico. Lá pode-se encontrar a seção dos temas fáceis, outra dos temas difíceis, outra dos específicos, outra da multidisciplinaridade, outra, outra e mais outra…
Ocorre que a segmentação do conhecimento (recorte, delimitação, etc.) não é algo que deva ser visto como pronto e acabado. Ela representa um aspecto do desafio à ser enfrentado por todos que pretendem vivenciar a pesquisa (da graduação à pós-graduação) pois, é claro, não se pode saber tudo de tudo. Neste sentido, pesquisar não é apenas desvendar, mas, ao mesmo tempo, construir e modelar. O que resulta deste processo é sempre algo provisório. Nem mesmo as ciências empíricas podem fugir da dimensão criativa e contingente que permeia o pensamento.
Classificar e segmentar são aspectos que fazem parte do jogo simbólico do pensamento, da linguagem e da comunicação - refiro-me ao conhecimento enquanto processo - mas de forma alguma devem ser encarados como atributos indeléveis de um saber pretensamente universal. Prega-se (equivocadamente) que verdade e certeza são valores absolutos. Em nome destes valores, muitos encaram os diversos saberes como unidades monolíticas. Assim, replica-se insistentemente a ideia do conhecimento como algo departamentalizado e hierarquizado. Basta observar os manuais de metodologia. Mesmo em edições mais recentes ainda se encontra o discurso propedêutico da “classificação do conhecimento” que separa a razão da emoção e afirma que o saber científico é o único capaz de revelar a verdade (quanta pretensão!). Nesta perspectiva, há saberes que “valem mais” do que outros. Eis a matriz da hierarquia do conhecimento que serve como base para aceitar que há pessoas que sabem mais do que outras, que existem estratos de conhecimento mais elevados do que outros. Creio que estas afirmações não passam de julgamentos exclusivamente quantitativos, superficiais, pífios e discriminatórios.
Embora o pensamento unidimensional e excludente ainda assombre a intelectualidade humana, o século XXI aponta para a necessidade de lidar com a diferença de saberes de forma plural, inclusiva e emancipadora. Portanto, não creio que existam temas reservados (próprios) para determinados níveis acadêmicos. A questão implica muito mais em avaliar as possibilidades e potencialidades de que dispõe o pesquisador em dado momento e lugar, do que partir para prejulgamentos sobre o que é ou não é “adequado” pesquisar na graduação.
Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

1 de julho de 2015